O mito do pertencimento vital

A vida a ninguém pertence, nenhum membro da sociedade pode alegar possuir essa preciosidade. O suicídio é abominado, os suicidas são desprezados e os doentes forçados a sobreviver em um mundo permeado de mentiras, intrigas e críticas satíricas ofertadas por seus próprios pátrios.

As instituições são as verossímeis proprietárias das vidas, e eu não estou falando de grandiosos edifícios empregatícios,  na verdade, elas são bem mais corriqueiras do que isso : família, igreja, escola, ofício, Estado… O indivíduo contemporâneo é acometido por um transtorno psicológico e massacrado para que controle seus sentimentos, e não considero aqui o ócio matutino ou a peculiar euforia cotidianos, nitidamente, eles são mais complexos do que isso : hodiernamente, a humanidade classifica os “merecedores” dessa famosa felicidade, deveras muitos já a puderam experimentar, porém outros nem possuem a ambiciosa oportunidade de tentar. Também presencia-se a raiva incontrolável : assim como substâncias voláteis são exaladas, atitudes tornam-se inaceitáveis e os ressentimentos, incuráveis. E o que dizer sobre a ansiedade exacerbada? Veloz como queimada sobre mata preservada, tão fugaz que não permite sobrar nada. 

Sua alma vazia vivencia a dolorida monotonia que eles denominam “fantasia” e ainda lhe mandam parar de “mentir”, “fingir” e sentir. Você está imerso nas gigantescas labaredas e prossegue sendo condenado por quem mais confia : palavras impiedosas lhe são destinadas, generosas doses de combustível sobre ti jogadas. Carbonizado, este é o seu estado, pois seus oscilantes tormentos emocionais devem ser suportados segundo os preceitos institucionais. 

Nessa perspectiva, medicamentos controlados e terapia são para “loucos” e tu só podes ser um desconhecido implorando por atenção ou um pervertido recebendo a tua punição. Por fim, nem mesmo a tua vida te pertence : tu não podes se tratar nem se suicidar, apenas aguentar e atuar como a sociedade aprovar. 

Senhorita Reprimida, Brasília (DF)